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domingo, 10 de abril de 2011

Crônica da Casa Assassinada: a vida e a morte em conjunção

Sempre fui uma amante da literatura... Acho que através dos textos podemos viajar, criar, viver outras vidas... A literatura nos faz um efeito revigorante de estar em vários mundos ao mesmo tempo! Desde ontem estou nostálgica... Sobretudo de leituras que se inscreveram em meu espírito tão poético e artístico... Às vezes chego a pensar que não existo, que não passo de uma personagem, talvez de Pirandello, à procura de quem escreva minha história... Mas na dúvida, acabo vivendo como se existisse... E busco na arte minha inspiração...
Enquanto procuro meu autor, na esperança que me faça um final feliz.. Sigo lendo histórias, felizes ou tristes, divertidas ou inquietantes... Histórias que me encantam e me fascinam... A Crônica da Cassa Assassinada é uma delas!
Na Crônica da Casa Assassinada, Lúcio Cardoso acompanha a ruína de uma família mineira, representante de toda estrutura familiar que começa ruir. A história desenrola-se numa fazenda em que a casa desempenha o papel principal: as personagens são feitas como que da estrutura de alvenaria da casa... são presas às suas bases e fundações, a casa, por sua vez, tem suas bases erguidas em carne e osso, é o sangue dos seus habitantes que a mantém e alimenta. A casa possui alma, uma alma sombria, que representa a decadência e a precipitação ao inferno. Ao mesmo passo que é a personagem vibrante do texto, sagrada e profana, divina e demoníaca. A narração assume, muitas vezes, a perspectiva da casa, dos temores que a habitam, da casa que sangra, que sofre, que abriga os mais trágicos segredos.
Lúcio Cardoso revela seu talento para a criação de uma atmosfera sombria, de pesadelo e de sondagem interior, dando à prosa uma rara densidade poética. Tangencia o surrealismo, chegando bem perto dele, mas sem perder o aspecto regional de sua obra. Difícil determiná-lo objetivamente... transita por vários mundos: romântico, simbolista, realista, surrealista... é, enfim, transcendente!
A Crônica da Casa Assassinada cria um clima de morbidez que envolve o ambriente e os seres... Algo entre O Morro dos Ventos Uivantes, Cem Anos de Solidão e os mais primorosos contos de Edgar Allan Poe. A história dos Meneses é construída por fragmentos... Não há referências diretas, mas cartas, diários e confissões de pessoas que conheceram a protagonista - e dela mesma - que estruturam a narrativa. Dessa forma, o texto assume um caráter angustiante, e sofrido, de um amor que se crê pecado. E este pecado torna-se uma representação da plenitude e da própria vida, uma libertação, um mal extremamente necessário.
A tragédia de um indivíduo reflete-se em todos, que percorrem várias gamas de reações que vão da febre amorosa ao ódio, deste à indiferença ou ao julgo da sociedade. Lúcio Cardoso realiza uma forma complexa de romance introspectivo, em que o individual assume proporções coletivas. O atmosférico e o sensorial não mais se justapõem, mas se combinam no plano de uma escritura cerrada, capaz de converter o descritivo em onírico e o psicológico no existencial.
A Crônica da Casa Assassinada surpreende, sobretudo, por seu fôlego, e, também, pelos múltiplos olhares narrativos. Enquanto viaja lentamente por um caminho obscuro, à margem do qual se sucedem desvios psicológicos e conflitos morais, o leitor testemunha a queda da casa dos Menezes.
A agonia de Nina centra-se em um conflito exitencial: sua alma libertária presa a um corpo destruído pelo câncer, traço de um Romantismo latente, em que se é muito mais do que aquilo que a matéria infame nos permite ser. Nina é a vida, ainda que na consciência trágica do pecado e do mal. Tudo para quando ela não está! Num movimento contraditório, porém, ela busca a morte a todo instante. Uma nítida busca da totalidade através dos opostos complementares. Nina representa, assim, ramificação da metástase que condena a casa e contagia seus habitantes. A casa, então, de lar e fazenda produtiva se vê transformada em um cemitério de mortos-vivos.
As flores, violetas, marcam as estações dos personagens, os enganos, a vida na realização do amor no canteiro de um homem jovem, as tantas mortes, a ressurreição possível na imortalidade dos genes e a prisão a que estão condenados os homens resignados. As violetas são simbólicas... Simbolizam a transcendência, a passagem de um estado a outro... Lembrando que sua cor representa a morte, o luto e o segredo.
A Crônica da Casa Assassinada é um texto marcado por fusões: fusão entre o eu e o mundo, entre o eu e o outro, entre espírito e matéria. Toda fusão, porém, gera um aniquilamento... tudo que se funde aniquila parte da existência. A Crônica funde emoções, sensações, sentimentos... aniquila algo e cria algo novo... gera um universo tão ímpar que jamais decifraremos por completo...

"Não era simplesmente o amor que ela desejava, mas a fusão, o aniquilamento. E eu aceitava morrer, fechava os olhos, atirava-me ao desconhecido - nossos corpos se fundiam.
(...)
Eu não existia, era apenas o componente de uma aliança esfacelada e sem sentido. E quem jazia estendida sobre aquelas cobertas, não era ela, era eu, um eu difuso, separado em luta contra a escuridão e terror, mas que ainda assim representava o mais vivo e o mais importante de mim mesmo."
(Lúcio Cardoso)

Este é Lúcio Cardoso! Embora pouco citado, um nome ímpar em nossa literatura! Fica a sugestão, aos amantes de uma boa leitura, de um livro apaixonante.

Beijinhos a todos!


6 comentários:

Vanessa Biali disse...

Oi, Clau!
Que boa dica! Vou anotar para a próxima ida à livraria.
Obrigada pela sua visita e comentário.
Bom finalzinho de domingo para você!
Beijos,
Vanessa

Nina Dias disse...

Clau, gosto de romances familiares e vou rpocurar o livro, obrigada pela partilha, bj e boa semana

Luísa Q disse...

Olá Clau,
Adorei a dica, parece ser muito interessante, em breve vou ler este livro.
Boa semana!!!
Bjs

Ana Paula Ruggini Zarpelon disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Ana Paula Ruggini Zarpelon disse...

olá Clau,

gostei muito do blog e dos posts! Adoro ler e indicações são sempre bem vindas!

Abraços!

Isabel Silva disse...

Olá Clau.
Amiga já fiz a postagem do seu sorteio no meu blog.
Agora espero que esteja tudo certo e eu possa participar do seu sorteio, até lá, desejo-lhe boas artes e boas leituras.
Beijos
Isa

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