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terça-feira, 1 de março de 2011

Morre um imortal...

A imortalidade sempre foi uma busca da humanidade... seja através da ciência, seja através dos desejos espiritualistas de uma alma imortal. Seja como for, porém, alguns atingem esta singular condição. Nomes como Homero, Dante, Da Vinci, Shakespeare, Baudelaire, Poe, John Milton, Cervantes e tantos outros mantêm-se vivos ainda hoje por suas mentalidades imortais que deixaram para um tempo em que o tempo não mais existe obras eternas, sublimes e atemporais. A imortalidade dessas almas comprovou-se com o passar dos anos, das décadas, dos séculos... Quem nunca ouviu falar na Odisséia? Quem jamais se intrigou com alguma das muitas histórias inusitadas de Poe? Quem nunca parou e pensou: ser ou não ser? Eis a questão! O domingo de 27 de fevereiro deste ano entrará para a história, não da humanidade, mas da imortalidade... Morre o homem! Nasce o imortal! Aos 73 anos, Moacyr Scliar, deixa orfã a cadeira 31 da Academia Brasileira de Letras, a qual ocupava desde agosto de 2003. Apesar da grande diversidade de sua obra - extensa e magnífica, que conta com mais de 70 textos publicados - Scliar jamais abandonou a sua origem... A temática judaica foi sempre uma constante em sua obra... Scliar acabou por ser o homem que reescreveu a Bíblia: faz uma trajetória pela vida judaica que se inicia pela questão dos imigrantes e vai voltando em sua história... retomando fatos e momentos até chegar à sua origem. Com uma mentalidade vibrante e um olhar aguçado sobre a história seguiu este caminho, repensando os muitos fatos narrados na Bíblia.
Sentiremos saudades de sua presença diária na vida portoalegrense... Suas obras despertarão um sentimento nostálgico a todos que conheceram a simpatia e olhar tranquilo de Scliar... Mas, sobretudo, suas obras serão um legado imortal, uma presença certa e maciça na história da nossa literatura.
Que tal uma dose de Scliar?

Espírito natalino
Moacyr Scliar

“Homem disfarçado de Papai Noel
tenta matar publicitária em SP.”
(Caderno Cotidiano – FSP – 18/12/01)


Primeira coisa que ele fez, ao chegar em casa, foi tirar a roupa de Papai Noel: estava muito quente, suava em bicas. Também queixou-se de dor na coluna. Isso é por causa do saco que você carrega, observou a mulher. De fato pesava bastante, o tal saco. A razão ficou óbvia quando ele esvaziou o conteúdo sobre a mesa: revólveres, granadas, submetralhadoras, vários pentes de munição. Já não dá para sair de casa sem um arsenal resmungou. 0 seu mau humor era tão óbvio que ela tentou amenizá-lo, puxando conversa. Como foi o seu dia, perguntou.
— Um desastre foi a azeda resposta. — Mais uma vez errei a pontaria. Já é a segunda vez nesta semana.
— Isto é o cansaço — disse ela.
— Você precisa de um repouso. Amanhã você vai ficar em casa, não vai?
— De que jeito? Tenho trabalho
- Amanhã? No dia de Natal?
— O que é que você quer? É a minha última chance de usar a fantasia de Papai Noel Tenho de aproveitar. Suspirou:
— Vida de pistoleiro de aluguel é assim mesmo, mulher. Natal, Ano Novo, essas coisas para nós não existem. Primeiro a obrigação. Depois a celebração.
Ela ficou pensando um instante. — Neste caso — disse —, vamos antecipar a nossa festinha de Natal Vou lhe dar o seu presente. Abriu um armário e de lá tirou um caprichado embrulho. Surpreso, o homem o abriu com mãos trêmulas. E aí o seu rosto se iluminou:
-Um colete à prova de balas! Exatamente o que eu queria! Como é que você adivinhou?
— Ora — disse ela, modesta, afinal de contas eu conheço você há um bocado de tempo.
Ele examinava o colete, maravilhado. E aí notou que ele era todo enfeitado com minúsculos desenhos.
— O que é isto? perguntou intrigado.
Ela explicou: eram pequenas árvores de Natal e desenhos do Papai Noel, trabalho de uma habilidosa bordadeira nordestina:
— Para você lembrar de mim quando estiver trabalhando.
Ele começou a chorar baixinho. Em silêncio, ela o abraçou. Compreendia perfeitamente o que se passava com ele. Ninguém é imune ao espírito natalino.
Texto extraído da “Folha de São Paulo”, edição de 24/12/2001.
Moacyr Scliar, às segundas-feiras, escrevia um texto de ficção baseado em notícias publicadas no jornal.


E nada melhor que lermos sobre ele em suas próprias palavras:

O texto, ou: a Vida - Uma trajetória Literária, Moacyr Scliar, (ed. Bertrand Brasil), lançamento que entrelaça experiências de vida e literatura.

Escrevo há muito tempo. Costumo dizer que se ainda não aprendi não foi por falta de prática. Comecei cedo; minhas recordações de infância estão ligadas a isso: a ouvir e contar histórias. Não só histórias de personagens que me emocionaram, me intrigaram, me encantaram, me assustaram — o Saci-Pererê, o Negrinho do Pastoreio, a Cuca, Hércules, Teseu, os Argonautas, Mickey Mouse, Tarzan, os Macabeus, os piratas, Emília, João Felpudo, Huck Finn —, mas também as histórias que eu ouvia de meus pais, de parentes, dos vizinhos, e aquelas que eu próprio inventava. Contar e ouvir histórias é fundamental para os seres humanos; parte de nosso genoma, por assim dizer. Sob a forma de mitos, as histórias proporcionavam, e proporcionam, explicações para coisas que parecem, ou podem parecer, misteriosas. De onde veio o mundo? De onde surgiram as criaturas que o habitam? O que acontece com o sol quando ele se põe? Mitos ou histórias proporcionam explicações que, mesmo fantasiosas (ou exatamente por serem fantasiosas), acalmam nossa ansiedade diante da vida e do universo. Os índios Kiowa, dos Estados Unidos, explicam, através de uma narrativa, por que a formiga vermelha tem o corpo praticamente dividido em duas metades. A história é narrada através de diálogos entre o deus Saynday e a Formiga Vermelha, que até então tinha o corpo inteiriço, esférico. Saynday expressa a sua preocupação em relação à morte, coisa que a Formiga Vermelha, no entanto, menospreza e considera apenas um justo castigo para incompetentes. Dias depois o filho da Formiga Vermelha morre, pisado por um búfalo; desesperada, ela tenta suicidar-se, cortando-se em duas metades com uma faca, mas Saynday não permite. Resultado: a Formiga Vermelha fica com o corpo quase seccionado. Desta maneira, além de prover uma explicação para a característica do inseto, a narrativa envolve uma meditação sobre a morte e o sofrimento. Tão importantes quanto os mitos são os contos populares, aqueles que serviram de base para as histórias de Charles Perrault (1628-1703), dos irmãos Grimm (Jakob: 1785-1863; Wilhelm: 1786-1859), de Hans Christian Andersen (1805-1875).
Como entender a magia dos contos de fadas e as narrativas populares em geral? Vários teóricos estudaram o assunto, à luz de diferentes pontos de vista. Para começar, temos o russo Vladimir Propp (1895-1970), que usou o método estruturalista para identificar os elementos narrativos mais simples dos contos populares russos, os "narratemas". Identificou, assim, 31 narratemas básicos. Por exemplo: 1) o herói é apresentado; 2) o herói recebe uma proibição ("nunca atravesse aquele bosque"); 3) o herói viola a interdição; 4) o herói encontra o vilão; e assim por diante. Esta, contudo, é uma análise formal. Para entendermos o significado psicológico das histórias temos de ir mais fundo, como fez Bruno Bettelheim (1903-1990).
Egresso de campos de concentração, Bettelheim imigrou para os Estados Unidos, onde se tornou professor de psicologia na Universidade de Chicago. Lá criou a chamada Escola Ortogênica, que tratava de crianças mentalmente perturbadas. O trabalho lhe deu um certo prestígio; sua reputação, contudo, ficou prejudicada quando tornou-se público que as credenciais universitárias de Viena, apresentadas por ele, não existiam e que havia maltratado crianças. Mas seu livro A psicanálise dos contos de fadas, que examina esses contos à luz da psicologia freudiana, teve muita repercussão. Bettelheim sustenta que tais narrativas são importantes no desenvolvimento da criança, ajudando-a a entender e, inclusive, a sublimar os seus impulsos agressivos. Já Marie-Louise von Franz (1915-1998) aplicou os princípios da análise junguiana aos contos de fadas. Em Uma introdução à interpretação dos contos de fadas, argumenta que tais narrativas são a mais pura e simples expressão do inconsciente coletivo postulado por Carl Jung (1875-1961), partilhado por toda a humanidade e povoado por gigantes, monstros, bruxas, demônios. O historiador contemporâneo Robert Darnton (1939- ) diz que os contos de fadas nos ajudam a entender o mundo mental — temores, esperanças — de épocas passadas. Em muitos casos, funcionavam como lições práticas.
A história do Chapeuzinho Vermelho, narrada pelos pais às filhas, era uma advertência: na Idade Média as meninas eram presas fáceis dos senhores feudais, que podiam violentá-las sem qualquer restrição. Os mitos antigos encontram correspondência nas narrativas dos bardos gregos e romanos, nas lendas orientais, nas parábolas bíblicas, na novella medieval italiana aperfeiçoada por Boccaccio (1313-1375), nos fabliaux franceses, nos contos modernos. Porque têm princípio, meio e um final, as diferentes formas de narrativa nos dão a consoladora idéia de que a vida faz sentido. Final, aliás, não é a mesma coisa que fim. Final é menos drástico, e mais misericordioso. No final a imagem fica congelada; há um potencial para a continuidade, esta sem limites. Ad imortalitatem, a divisa da Academia Brasileira de Letras, expressa um desejo (fantasioso, mas desejo) de todos os seres humanos. Todos queremos ser imortais. A literatura é uma promessa neste sentido, uma dupla promessa, aliás. De um lado, o autor tem a esperança da permanência: "Fulano não morreu, permanece vivo em suas obras." De outro lado, a história sempre pode continuar. "Casaram e foram felizes para sempre." Este "sempre" é uma gama infinita de possibilidades: os filhos, alegres e rechonchudos; os netinhos... De divórcio ninguém fala ao final de um conto de fadas. Não faz parte do final feliz.
Unindo os seres humanos na esperança, ainda que fantasiosa, as narrativas criam laços emocionais. Querem um exemplo? Tomem uma família (pai, mãe, filhos) em casa, à noite. Já jantaram, já viram tevê — a típica rotina das casas brasileiras nesse horário. E aí o pai ou a mãe anunciam ao caçula que está na hora de dormir.
Não há criança que receba esta notícia sem protestar. Afinal, será afastada do convívio dos pais e dos irmãos; será levada para o quarto de dormir; a luz vai se apagar; a porta vai se fechar. Ficará no escuro, aquele escuro que a imaginação infantil povoa de seres fantásticos, não raro ameaçadores. E por isso reclama, sapateia, chora. Todo pai e toda mãe sabem, contudo, que há um jeito de superar esse problema. Uma frase: "Se você for para a cama agora, eu lhe conto uma história."
Não há menino ou menina que resista a este convite. Porque a história significa a presença tranqüilizante do pai ou da mãe. E, se eles lerem a história, a criança associará o objeto livro com esta imagem protetora: estará nascendo ali um futuro leitor ou leitora.
A história é feita de palavras. Palavras são fundamentais para quem escreve, como a madeira, a serra, o martelo, os pregos, para o marceneiro. Esta comparação, no meu caso, é mais do que adequada. Passei boa parte da infância na oficina de móveis do meu tio. Como não podia comprar brinquedos em lojas — eram muito caros —, eu próprio os fabricava, utilizando a madeira que sobrava dos móveis. Confeccionava, assim, aviões e navios de guerra, todos com muitos canhões — cada canhão representado por um prego, com o que ficava fácil criar um grande poder de fogo.
Lembro desses brinquedos com saudade. Ensinaram-me, em primeiro lugar, a trabalhar com as mãos, o que é um bom antídoto para a arrogância intelectual. Ensinaram-me também a usar a imaginação para com ela suprir as deficiências dos toscos objetos.
A comparação com oficina pode parecer insólita; literatura nem é considerada trabalho. Há uma história (sempre contando histórias, Moacyr Scliar! Sempre contando histórias!) sobre um escritor e seu vizinho. O vizinho olhava o escritor que estava sentado, quieto, no jardim, e perguntava: "Descansando, senhor escritor?" Ao que o escritor respondia: "Não, amigo, estou trabalhando." Daí a pouco o vizinho via o escritor mexendo na terra, cuidando das plantas: "Trabalhando?" "Não", respondia o escritor, "descansando".
Uma ocupação que não parece trabalho mobiliza arcaicos sentimentos de culpa; afinal, e ao menos no Ocidente, ainda vivemos sob a influência do bíblico "ganharás o pão com o suor do teu rosto". Isto talvez explique um curioso ritual do Nobel Gabriel García Márquez (1928- ). O escritor colombiano conta que, quando se senta para escrever, coloca sobre a mesa os mais variados objetos — lápis, tesoura, cola, borracha, grampeador — para se sentir como um operário. Mas o resultado objetivo desse esforço, do ponto de vista material, é modesto: resume-se a palavras. Palavras na tela do computador, palavras no papel.
Palavras, palavras. São tudo — para os escritores, não para as pessoas em geral. Isto explica a amarga ponderação de Franz Kafka (1883-1924): "É um absurdo trocar a vida por palavras." Ou o dilema posto por Pirandello (1867-1936): "Ou se vive, ou se escreve." Ou a poética afirmação de Pablo Neruda (1904-1973): "Livro, quando te fecho abro a vida." Apesar da suposta oposição entre texto e vida, todos os escritores sabem que não há outra forma de produzir literatura. É preciso, por assim, dizer, suspender a existência, ainda que momentaneamente, para criar outras existências, virtuais, ficcionais.


Fiquem bem... com a tranquilidade de espíritos nobres e com a imortalidade de palavras eternas...


Beijinhos a todos...



7 comentários:

Nina Dias disse...

Oi Clau, obrigada pela visita sempre carinhosa! Mais um escritor que se vai, agora encontrando tantos que se foram...bj Nina

SONIA disse...

Oi Clau, obrigada pelo comentário sobre a bolsa, é ótima para praia

abs

Sonia

KINHA disse...

Olá

Venha participar dos 2 sorteios.

Estamos com 2 SORTEIOS; O principal é o de 2 belíssimas JOIAS e o outro é um relâmpago, só hoje.

As inscrições para o SORTEIO das JOIAS encerra amanhã...

Bjoooooooooooo...............

http://amigadamoda.blogspot.com

Regina disse...

Oi Clau, como vai você? Trabalhando muito?
Obrigada por essa postagem excelente. Obrigada por compartilhar esse texto conosco.
Beijinhos, e boa noite.

Vanessa Biali disse...

Oi, Clau!
Sim, ele vai nos fazer falta. Adorava ler as crônicas de domingo na Zero Hora... Era um homem muito inteligente e talentoso.
Um bom carnaval para você!
Beijos,
Vanessa

Secretaria José de Alencar disse...

MUITO LINDO. ADOREI.

Secretaria José de Alencar disse...

MUITO LINDO. ADOREI.

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